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Coluna Feira Terra de Cultura

Tudo sobre a cultura feirense.
Por Emerson Azevedo

Publicada em 15 de Novembro de 2017 ás 01:55:22

 Desde o seu enforcamento há 168 anos, na primavera de 1849, Lucas Evangelista dos Santos, o Lucas da Feira, tem dividido a opinião dos estudiosos. Ladrão sanguinário para uns, para outros um defensor da justiça social. Há 40 anos, em 1977, o jornal A Tarde brindou seus anunciantes, assinantes e leitores com um texto assinado pelo advogado, historiador e jornalista Hélder Alencar sobre o escravo que se tornou um dos personagens mais conhecidos da história de Feira de Santana. Vale a pena relembrar.

Mitos e lendas: estórias que falam sobre Lucas da Feira

Hélder Alencar

Na manhã de 25 de setembro de 1849, conta a estória, uma nuvem de gafanhotos caiu sobre a Feira de Santana, sobre esta Feira de Santana de tantas coisas. Naquela manhã, era enforcado Lucas Evangelista dos Santos, Lucas da Feira

Mas Lucas não é estória. É história. Incorporou-se, definitivamente, à História da Feira de Santana, cidade onde nasceu, viveu, sofreu e empreendeu toda sua luta, na defesa de sua raça, da raça negra, então oprimida, vilipendiada e escravizada.

Era contra a opressão da raça que se levantava Lucas Evangelista, nascido de dois escravos gêges, Inácio e Maria, ele próprio escravo, de três senhores, primeiro da rica proprietária de terra, Antônia Pereira de Lago, depois por morte desta, de um seu sobrinho, o padre José Alves Franco e, finalmente, do alferes José Alves Franco.

Inconformado com sua condição de escravo, Lucas conseguiu fugir aos 20 anos, fugir, não se libertar, pois não viu a abolição da escravatura, ocorrida anos depois do seu enforcamento, em patíbulo armado no fim da Avenida Senhor dos Passos, onde hoje se ergue o Cine Iris.

Para lutar contra a escravatura, Lucas forma um grupo de 30 homens, onde despontava Nicolau, Flaviano, Bernardino, Januário, José e Joaquim. Grupo inclusive que, segundo um estudo recente, de um teólogo português, no livro “Formação do Catolicismo Brasileiro”, influenciou para que a religião católica fosse praticada pelos negros. O seu quilombo é, hoje, considerado fundamental para a disseminação do catolicismo entre os negros.

Foi intensa a luta do bravo negro. Nascido em 18 de julho de 1807, Lucas saiu para a vida de lutas vinte anos depois, em 1827, quando conseguiu romper os grilões que o prendiam aos senhores donos de escravos.

E durante vinte e um anos, até a sua prisão, nas matas de Santana da Feira, em janeiro de 1848, Lucas Evangelista dos Santos lutou, combateu, enfrentou, desconheceu o medo e covardia, na defesa de sua raça.

“Negro superior com qualidades de chefe”, como bem afirmou Nina Rodrigues. Lucas tornou-se um homem diferente da maioria. Não se amoldou as circunstâncias, nem se adaptou ao regime escravocrata. Reagiu e lutou, liderando companheiros de raça.

A sua revolta não nasceu de um ato individual. A sua luta teve um sentido coletivo e social na defesa de uma raça, a sua raça, na redenção dos negros.

E justamente por isso Lucas não morreu. Está aí, desafiando mais um século, cantado pelos poetas do povo, analisado em tantas obras.

Claro que sua luta, destemida e incessante, passou a incomodar os senhores de terras, os ricos portugueses, donos dos escravos, que tratavam de unir-se contra ele, com uma palavra de ordem, violenta e definitiva: Lucas tinha que morrer.

E assim, nos fins do ano de 1847, a caçada intermitente começou, com crueldade, subornos e traições que jamais fizeram parte do humilde e modesto vocabulário de Lucas da Feira.

O cerco foi se formando nas redondezas de Santana da Feira. Um a um foram prendendo os seus companheiros. O primeiro foi Nicolau.

A prisão de Lucas estava eminente naquele janeiro de 1848. Lucas resiste enquanto pode. A polícia atirava para todos os lados e em todas as direções, até que uma bala o fere, quebrando-lhe o braço, minando-lhe as forças. Foi a luta desesperado de um só contra milhares.

Enfim, na manhã de 28 de janeiro de 1848, Lucas é preso e conduzido ao centro da cidade, em meio a festa dos escravocratas.

Bailes foram organizados. Os sinos das igrejas repicaram festivamente. Fogos de artifícios cruzaram os céus. Manifestações intensas se faziam. Eram os escravocratas comemorando a prisão de um grande homem negro.

Do outro lado, entretanto, lágrimas eram derramadas. Choravam os que tinham sido protegidos por Lucas. E quanta gente ele protegeu.

Lucas Evangelista dos Santos, real e lendário, herói de uma época de trevas, personagem de uma noite sem estrelas. Figura legendária de tempos de opressão e horror permanece vivo. Vemo-lo em cada ser humano que ele, com sua luta ajudou a libertar. 

Bravo como ele só, valente como poucos, corajoso como quase ninguém, Lucas da Feira é o símbolo de uma era apavorante e estúpida, cruel e miserável.

Fonte: Secom 

Por Emerson Azevedo

Publicada em 13 de Novembro de 2017 ás 13:15:31
Foto: Lucas Rosario

 A reforma dos largos do Pelourinho já está chegando à reta final, e em poucas semanas, os soteropolitanos e visitantes da cidade terão novamente à disposição estes importantes espaços de dinamização e valorização da arte e produção locais, nacionais e internacionais. Para tanto, a Secretaria de Cultura da Bahia (SecultBA) informa que o Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI), unidade responsável pela programação artística nos largos, já está aceitando pedidos de solicitação de pauta. 

Qualquer pessoa física ou jurídica interessada em promover eventos culturais pode realizar a solicitação de pauta. O passo a passo é simples. O formulário para a solicitação está disponível nos sites do CCPI e da SecultBA. O solicitante deve estar ciente do regulamento dos espaços da SecultBA e assinar o termo de compromisso, também disponíveis online. Preenchida a documentação, ela deverá ser entregue na sede do CCPI, localizada na Casa 12, no Largo do Pelourinho. Não são cobradas taxas para a cessão dos largos Pedro Archanjo, Tereza Batista e Quincas Berro D’Água. 

Os largos do Pelourinho prometem voltar com tudo para agitar o verão baiano. A SecultBA investiu R$ 1,5 milhão nos três largos, visando além da estética e melhora da infraestrutura  atender às determinações do Corpo de Bombeiros, como rotas de fuga, guarda-corpos adequados, dentre outras especificações de segurança exigidas pelas legislações vigentes. 

Por Emerson Azevedo

Publicada em 09 de Novembro de 2017 ás 14:54:46
Foto: Lucas Rosario

 A Secretaria de Cultura da Bahia assina Termo de Acordo e Compromisso (TAC) com dezessete organizações culturais sem fins lucrativos, contempladas pelo Edital de Ações Continuadas de Instituições Culturais. Com recurso do Fundo de Cultura da Bahia (FCBA), o apoio é fundamental para a manutenção e sustentabilidade dos espaços culturais, que receberá aporte financeiro para o triênio (2017-2020). Para 2017 serão destinados aproximadamente três milhões de reais. Entre 2018 e 2019 o valor já assegurado é cerca de dezesseis milhões. Para 2020 o recurso destinado é de aproximadamente cinco milhões de reais. 

Para Vovô, presidente do Primeiro Bloco Afro do Brasil, o apoio permite ao Ilê Aiyê a sustentabilidade e longevidade das ações da instituição que recentemente completou 44 anos. Segundo o presidente, sem o investimento do Estado, o Ilê Aiyê é obrigado a custear a manutenção com a venda de ingressos, muitas vezes insuficiente para o cachê dos músicos e bailarinos. Este apoio dá as condições para uma instituição tão importante para a cultura afro-brasileira, a continuar pensar o novo, assim como em 74- disse. 

O edital de Apoio a ações continuadas de instituições culturais 2017/2020, tem como fonte de recursos o Fundo de Cultura da Bahia. Prevê repasses financeiros através do acompanhamento de planos de ação, no qual os proponentes necessitam apresentar o cumprimento das metas informadas em seus respectivos planos de ação. 

Com 53 anos, o Teatro Vila Velha é um espaço que tem em seu DNA o ambiente da resistência na criação artística, mantendo-se como um teatro político e resistente. Para a coordenadora geral do teatro, Bianca Araújo, a participação do Estado apoiando os espaços de culturais da cidade ratifica o estado republicano das políticas culturais do governo, mesmo em uma conjuntura nacional desafiadora.

 Com 100 anos de fundação, a Academia de Letras da Bahia, instituição de prestígio por disseminar as letras e as literaturas brasileiras, é um espaço que congrega em sua história artistas e pensadores da cultura. Situada no Palacete Góes Calmon, na Avenida Joana Angélica, a biblioteca e o arquivo, guardam valiosas obras para a memória cultural do Brasil. Evelina Heisel, primeira mulher a presidir a Academia, ressalta que o apoio é de extrema importância pela sua singularidade. É uma instituição que não executa atividades mercadológicas, tornando o apoio do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Cultura fundamental pela necessidade em assegurar o patrimônio material dos serviços, e imaterial, ao apostar na literatura como uma arte redentora e salvadora. 

A Fundação Casa de Jorge Amado, ponto de referência no Pelourinho que tem como missão preservar e difundir a memória do Jorge Amado, além dos arquivos do escritor reúne o acervo de sua esposa e também escritora, Zélia Gattai. A Casa Azul, situada no Largo do Pelourinho, recebeu o arquivo pessoal da escritora e ex-diretora da Fundação durante trinta anos, Miriam Fraga, e se destina a manter, entre mais de trezentos mil itens, a memória destes autores que fazem parte da história da Bahia. Para Ângela de Sá, diretora executiva da fundação, o apoio continuado do Fundo de Cultura é imprescindível por assegurar o custeio básico da instituição que consegue ter fôlego para se capitalizar e fortalecer a cultura da Bahia. 

A Casa de Jorge Amado recebe aproximadamente oitocentos estudantes por mês. Realiza cursos, seminários, lançamentos de livros e é a criadora do Flipelô (Feira Literária Internacional do Pelourinho), evento idealizado por Myriam Fraga que teve a primeira edição em 2017. Com apoio do Estado a instituição tem contribuído para o fortalecimento do Pelourinho como um ambiente vivo e de intercâmbio cultural. 

O Balé Folclórico da Bahia, instituição que preserva as tradições culturais e populares do estado por meio da dança foi contemplado no edital. Há 13 anos administrando o Teatro Miguel Santana o Balé Folclórico tem em suas realizações, além dos espetáculos apresentados, a formação de jovens, fomentando o ingresso destes bailarinos no mercado de trabalho, nacional e internacional. Para Vavá Botelho, diretor executivo do Balé, há contextos diversos enfrentados no Pelourinho que tem inviabilizado a presença do público, sempre majoritariamente de turistas. Sem público não há bilheteria. Segundo o diretor, o apoio oriundo do Fundo de Cultura é vital para a manutenção das ações no espaço.  “A cultura precisa ser elevada, porque é ela que atinge a educação e move o mundo”- acrescentou.

A mais recente seleção do edital de ações continuadas convocou as seguintes instituições culturais: Academia de Letras da Bahia, Fundação Anísio Teixeira, Balé Folclórico da Bahia, Fundação Casa de Jorge Amado, Fundação Hansen Bahia, Museu Carlos Costa Pinto, Fundação Pierre Verger, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Museu da Misericórdia, Teatro Vila Velha, Teatro Gamboa Nova e Teatro Popular de Ilhéus (que tiveram continuidade); e também Centro Cultural e Educacional Senzala do Barro Preto (Ilê Aiyê), Associação Cultural do Samba de Roda Dalva Damiana, Projeto CultAs – Cultura Ativa no Sisal, Projeto Espaço Cultural Saici e Casa de Cultura Jonas e Pilar em Buerarema. 

Fundo de Cultura do Estado da Bahia (FCBA) – Criado em 2005 para incentivar e estimular as produções artístico-culturais baianas, o Fundo de Cultura é gerido pelas Secretarias da Cultura e da Fazenda. O mecanismo custeia, total ou parcialmente, projetos estritamente culturais de iniciativa de pessoas físicas ou jurídicas de direito público ou privado. Os projetos financiados pelo Fundo de Cultura são, preferencialmente, aqueles que apesar da importância do seu significado, sejam de baixo apelo mercadológico, o que dificulta a obtenção de patrocínio junto à iniciativa privada. O FCBA está estruturado em 4 (quatro) linhas de apoio, modelo de referência para outros estados da federação: Ações Continuadas de Instituições Culturais sem fins lucrativos; Eventos Culturais Calendarizados; Mobilidade Artística e Cultural e Editais Setoriais. Para mais informações, acesse: www.cultura.ba.gov.br

 

Por Emerson Azevedo

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