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Coluna Feira Terra de Cultura

Tudo sobre a cultura feirense.
Por Emerson Azevedo

Publicada em 13 de Agosto de 2015 ás 17:46:48

Zé das Congas fabrica instrumentos e lança novos talentos no mercado musical

Foto: ACM /Secom PMFS
Um dos sonhos de Ze foi realizado ao tocar com Carlinhos Brown

O bairro da Rua Nova, em Feira de Santana, é muito conhecido pela sua musicalidade com a existência de grandes artistas, que hoje tem visibilidade a nível mundial. Um bom exemplo disso é José Pereira dos Santos, ou simplesmente Zé das Congas, ilustre morador da Rua Itororó, e dono de um talento incrível não só de tocar, mas de fabricar diversos instrumentos de percussão conhecidos pelo mundo a fora. Através da arte, da reciclagem, ele repassa seus conhecimentos para os mais de 200 “filhos adotivos”, seus alunos, que participam de seus projetos de cunho cultural e social.

Desde cedo, o garoto da Rua Itororó, despertou os sentidos para a música e dança e tinha Michael Jackson, como a sua grande referência. “Eu achava o máximo o break: a forma como ele conseguia dançar e cantar ao mesmo tempo. O imitava, por onde passava e dentro de mim já acalentava o sonho de mexer com música, seja cantando, tocando ou dançando”, afirmou Zé das Congas.

Sem condições financeiras para comprar discos ou ainda um aparelho toca-discos, desde cedo Zé das Congas começou a fabricar seus próprios equipamentos para estar inserido no universo musical. “A primeira oportunidade que eu tive de fabricar alguma coisa foi quando encontrei um compacto do grupo ‘Menudos’, em meio ao lixo. Daí tinha umas coisas velhas como caixa de madeira, agulha, fios e aí eu montei uma radiola. O primeiro som foi baixinho, mas deu para ouvir o disco”, lembra.

O menino foi crescendo e na inquietude da adolescência começou a futucar e tirar sons percussivos de vários instrumentos. Num bairro considerado o “berço da arte feirense”, ele logo foi descoberto e começaram a surgir os primeiros convites para apresentações e então começou a ganhar uns trocados, mas como o dinheiro era pouco, Zé das Congas ainda esbarrava em dificuldades. “Tinha vontade de comprar instrumentos, mas o alto preço era tipo uma ‘ducha de água fria’. Mas não recuei e aí comecei a fabricar meus próprios instrumentos de percussão reciclando um monte de coisas que encontrava no lixo”, conta.

No quintal de casa, Zé começou então a fabricar congas, atabaques, berimbaus, cajons, kalimbas, paus-de-chuva, chocalhos, timbales... Tudo feito de material reciclável - árvores mortas, tampinhas de garrafas; alumínio, ferro, plásticos e chaves inservíveis. “Paralelo a esta fabricação de instrumentos, eu continuava me apresentando com bandas, cantores ou individualmente e assim o meu trabalho foi se projetando a ponto de chegar a tocar com músicos conhecidos em todo o mundo”, observou Zé das Congas.

No hall dos famosos, Zé tocou nomes como Xangai, Luiz Caldas, além de todos os artistas feirenses. Porém, o músico não esconde que até hoje o grande momento da sua vida foi proporcionado há pouco tempo, quando teve uma oportunidade de tocar com Carlinhos Brown na Micareta de Feira. “Por tudo o que ele representa como músico e compositor a sensação de ter dividido as atenções com ele foi algo que não tem palavras para descrever a emoção. Este, sem dúvida, foi um dos grandes sonhos que realizei na vida”, declarou o artista.

A sua musicalidade também chegou aos Estados Unidos e Europa, onde já teve oportunidade de participar de apresentações e diversos seminários sobre a cultura brasileira. “A minha participação nestes eventos é importante porque através deles, busco me reciclar aprendendo outras culturas, conhecendo novos instrumentos e principalmente trocando experiências com outros povos. Por exemplo, eu tive oportunidade de estar com africanos e conhecer de perto a alegria deles, sem falar na grande arte que envolve a música e a dança naquele continente”, disse Zé das Congas.

NÃO PARA

Aos 40 anos, Zé das Congas é atividade pura porque além manter a intensa fabricação de instrumentos, em seu ateliê na Rua Itororó, ele ainda faz apresentações em igrejas e escolas, sem falar que coordena um projeto que tem a participação de mais de 200 crianças e adolescentes, a partir dos 13 anos de idade. “Não tenho tempo porque vivo sempre cheio de encomendas, já que fabrico instrumentos para serem revendidos em lojas, ou ainda aqui em casa mesmo. Uma conga, ou mesmo um atabaque levo um dia inteiro para fabricar. Tem 12 pessoas que trabalham comigo diretamente, mas dependendo da encomenda posso chamar mais gente para trabalhar”, afirma.

As aulas do curso geralmente ocorrem aos fins de semana, quando garotos de vários bairros da cidade se concentram na rua Itororó para as aulas de percussão. Os meninos aprendem os ritmos, a harmonia de vários instrumentos e para muitos acaba sendo a porta de entrada para o mundo da música. “Como sou muito conhecido, sempre sou muito procurado para indicar alunos meus para estarem ingressando em bandas ou fazendo trabalhos independentes. Dou o melhor de mim a eles, mas cobrou muito também: além da dedicação nas aulas, eles precisam estar bem na escola porque o estudo é importante na vida de qualquer pessoa”, salientou Zé das Congas.

Mesmo tendo mais de 20 anos de experiência, Zé das Congas disse que ainda sente aquele friozinho na barriga quando vai tocar. “Não importa onde, nem quando vou tocar. É algo que vai além do normal, ou seja, toco com muito sentimento e dedicação. Por isso sinto esta coisa do iniciante e estou sempre em busca de aprimorar cada vez mais meus conhecimentos, pois a música se renova a cada instante e que ama a música deve estar sempre acompanhando a sua evolução”, argumentou o músico Zé das Congas.

Cristiano Alves - Jornalista - DRT-BA-2300 

Colunista do Portal MF e Editor chefe do Jornal Folha do Estado 

Por Emerson Azevedo

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